Olhares que se cruzam

Olhares que atravessam a história de um tempo específico, de mulheres que viveram e vivem em diferentes épocas e que narram sua história e a história da fotografia. Olhares de autoras que vieram de longe, fugindo de uma Europa pós-guerra, e aqui aportaram entre as décadas de 1940 e 1960, trazendo, em sua bagagem, um olhar da fotografia moderna, de rua, de luta e resistência. Foi assim com autoras como Hildegard Rosenthal e seu olhar que passeia pelas ruas de São Paulo; com Madalena Schwartz, que conta muito bem a vida noturna de São Paulo; com Claudia Andujar e Maureen Bisilliat e suas reportagens; e com o olhar singular de Alice Brill. Fotógrafas que encontram, no ato fotográfico, a possibilidade de conhecer um país novo, de se apropriarem de seus movimentos, de suas entranhas e de sua cultura. A fotografia como conhecimento.

Olhares que se reencontram nas imagens da Nair Benedicto, Rosa Gauditano, Elza Lima e Lita Cerqueira. São olhares diversos, que, hoje, colocados lado a lado com a sensibilidade de Ana Carolina Fernandes, Paula Sampaio, Márcia Foletto, Gisele Martins, Isabel Gouveia e Tereza Mala, por exemplo, encontram ecos em trabalhos de fotógrafas mais jovens, com um olhar mais solto, que também narram o dia a dia de um país chamado Brasil: as ruas dos fotojornalistas, as festas com um olhar antropológico, os desastres ambientais, a solidão pandêmica. É um olhar apurado que faz a diferença, um olhar livre.

Fotografias que se encontram por ligações estéticas e pela tessitura de detalhes. Parcerias imagéticas que criam um diálogo entre os tempos e se reencontram nos silêncios, na força das cores, nas tramas e texturas dos pretos e brancos. Combinações singulares. Fotografias. Um caminho possível entre tantas narrativas.


Simonetta Persichetti
Jornalista, crítica de fotografia,
docente da Faculdade Cásper Libero,
consultora do projeto Presença.